Pesca e consumo sustentáveis em debate

Pesca e consumo sustentáveis em debate

Pesca e consumo sustentáveis em debate

Tertúlia no Festival Rota do Atum, Porto Santo

A tertúlia “Pesca e Consumo Sustentáveis – desafios locais num mundo global” realizou-se no Porto Santo, no dia 9 de junho de 2019, coorganizada por três entidades — a Direção Regional das Pescas (DRP) da Madeira, o Hotel Vila Baleira e a AIDGLOBAL.
O encontro, integrado no âmbito do Festival Rota do Atum, iniciou-se com o visionamento de pequenos filmes sobre a importância da pesca sustentável. 800 milhões de pessoas no mundo têm no peixe a principal fonte de nutrição e de rendimento para as suas famílias, a maioria das quais vive em países em desenvolvimento. A escolha sustentável de produtos do mar na Europa tem um impacto direto em famílias do mundo inteiro.

A abertura da tertúlia contou com a presença de Luís Ferreira, Diretor Regional de Pescas, e de Susana Damasceno, Presidente da AIDGLOBAL.
Luís Ferreira partilhou a Estratégia da Região Autónoma da Madeira para as Pescas, dando conta de alguns projetos em curso, como a Lota móvel, e enalteceu os métodos de captura artesanais usados na Madeira, em particular, a pesca de salto e vara com isco vivo, um dos processos mais sustentáveis.
Susana Damasceno reforçou a importância das várias entidades – públicas e privadas – trabalharem em conjunto para atingirem os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, destacando o Festival Rota do Atum como um bom exemplo. Esta união é necessária dado que se está a apanhar mais peixe do que o oceano pode produzir. Chegou-se a um ponto em que os ecossistemas marinhos e muitas comunidades locais — especialmente em países em desenvolvimento — estão em risco.
O orador João Delgado, Diretor de Serviços de Investigação da DRP, referiu que, de acordo com a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), a nível global, os stocks marinhos estão 7% esgotados, 17% sobre-explorados e 52% intensamente explorados. Apenas 3% estão subexplorados.
Uma das grandes causas da sobre-exploração é a pesca de arrasto que consiste no arrastamento de gigantescas redes lastradas, ao longo do fundo do mar, que provocam a destruição em massa dos ecossistemas, e em que uma parte demasiado grande do que vem à rede não é utilizável na alimentação humana ou é rejeitada, além de serem capturados peixes jovens.
Na sua comunicação “A migração do Pescado capturado na Zona Económica e Exclusiva (ZEE) da Madeira” (ver apresentação), João Delgado explicou que, no caso das espécies tropicais de atum, que constituem um dos principais recursos pesqueiros da Madeira e Porto Santo, a pesca intensiva, com redes de cerco e utilização excessiva dos FAD (Dispositivos de concentração de pescado), no início da “rota”, na própria área de desova (Golfo da Guiné), leva à captura em grande escala, com elevadas taxas de apanha de peixe imaturo.
De acordo com este especialista, o conceito de pesca sustentável implica, entre outros, a pescaria “one by one”, a apanha apenas de jovens adultos e adultos, a pescaria seletiva sem capturas acidentais de espécies protegidas (tubarões, mamíferos marinhos, tartarugas e aves marinhas) e a pescaria com uma baixa pegada ecológica, relativamente à pesca industrial.
Se mais pessoas comprarem produtos do mar sustentáveis, haverá oceanos, lagos e rios mais saudáveis. Um ambiente preservado beneficia as pessoas e o planeta.
Com vista a aprofundar o tema do consumo sustentável de pescado, Marta Barata da Associação Natureza Portugal, em associação com a World Wide Fund (ANP/WWF) apresentou o projeto “Fish Forward, iniciativa que defende que o consumidor não tenha que “abrir mão” de uma posta de atum. O que pode fazer é garantir que apoia o pescado sustentável e seguir as seguintes recomendações: comprar pescado certificado (preferir os selos MSC ou ASC ou marcas biológicas que indicam que o seu peixe tem certificados responsáveis e que provém de uma pesca ou aquicultura sustentável), não comer peixe “bebé”, verificar as etiquetas e optar por uma alimentação diversificada (Conheça todas as recomendações no guia WWF).

O painel de debate contou, também, com a presença de vários representantes, entre eles, da Coopesca Madeira, dos armadores do Porto Santo, dos pescadores locais e da Empresa Ilha Peixe.
Um dos temas que esteve em debate foi a dificuldade que os restaurantes, hotéis e habitantes locais têm em comprar peixe, no Porto Santo, pescado na própria ilha. Isso deve-se ao facto de a pesca ser um sector pouco atrativo para os jovens, não havendo muitos interessados em dar continuidade ao trabalho de quem se está a reformar (estivador, …). A promoção do empreendedorismo junto dos jovens e o apoio à modernização do sector, tornando-o mais atrativo, foram estratégias identificadas pelos presentes como necessárias para o desenvolvimento local.
Esta tertúlia contou com cerca de 20 participantes (veja-se aqui o álbum de fotos).
O Festival Rota do Atum permitiu a partilha de diversas outras experiências relacionados com o sector pesqueiro, designadamente a apresentação das conclusões do Estudo “A importância dos tunídeos nos hábitos alimentares dos madeirenses e porto-santenses”, por parte de Bárbara Cavaleiro do projeto MARE-Madeira.

A participação da AIDGLOBAL enquadrou-se no projeto “Educar para Cooperar – Porto Santo e Madeira” cofinanciado pelo Camões — Instituto da Cooperação e da Língua, I.P., que tem como parceiros a Câmara Municipal do Porto Santo, a DRAPS e o Sindicato dos Professores da Madeira.