O planeta é a nossa polis

O planeta é a nossa polis

O planeta é a nossa polis

Artigo de opinião redigido por André Barata, Professor na FCSH-UBI, no âmbito do projeto “Jovens na Política – Participar para a Cidadania Global (2ª Ed.)”.

Política provém da palavra grega polis, cujo significado mais literal é a cidade e, por extensão, o próprio estado que, na Grécia Antiga, em grande medida coincidia com a cidade.  Aristóteles escreveu Ta politika, um estudo dos assuntos relativos à polis ou, de forma mais elaborada, da arte ou ciência do governo dos assuntos do estado. É na Política de Aristóteles que se lê, logo no Livro 1, que o homem é, por natureza, um animal político (zoon politikón) no sentido de que, por natureza, é interdependente e deve viver em polis, em sociedade. Por isso, polis significou muito mais o conjunto dos cidadãos do que a geografia onde vivem.

Antes, aparecera a grande obra de Platão, Politeia, a que aprendemos a chamar República na sua versão latina. Esta tradução da polis por coisa pública (res publica) é consagrada séculos depois pelo grande Marco Túlio Cícero, como a coisa do povo (res populi), juntos numa multidão associada sob um consenso jurídico. E não apenas por razões de necessidade – a defesa conjunta de ameaças exteriores – mas pelo exercício livre e realizador da sociabilidade natural de que falava Aristóteles. A política era concebida com um bem. Longe, pois, das concepções, que surgiriam muito mais tarde na história, da política como um mal menor, necessário, para nos garantir a segurança.

Uma polis justifica-se onde haja cidadãos, seja numa cidade, num estado, entre estados. Para um cosmopolita, o mundo inteiro é uma polis e todas as pessoas são dela cidadãos. Reconhecer cidadania é o gesto primeiro da política.  Não se é cidadão sozinho no mundo e não se está genuinamente acompanhado sem um pressuposto de igualdade e dignidade. No sentido original, estar em companhia é estar entre iguais com quem se comparte o mesmo pão (companis).

Nas suas raízes, política é um bem maior, que nos realiza. A polis é uma comunidade tão alargada quanto a nossa capacidade de reconhecer os outros com igual dignidade, independentemente das diferenças. Num mundo global, cada vez mais interdependente na partilha dos recursos e das consequências das escolhas que fazemos, estamos todos em companhia, o norte e o sul, o rico e o pobre, o cidadão e o apátrida. O planeta é a nossa polis.

Por André Barata, Professor de Filosofia na Faculdade de Artes e Letras da Universidade da Beira Interior (FAL-UBI).